quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A mulher toda de preto, acompanhada das outras três, sentou-se vagarosamente, com aquele ar de desdém e sedução que somente as “moças da noite” possuem. A que ali já estava não deixou o que fazia, ainda girava o copo de conhaque marcado a batom sem ao menos erguer os olhos em um ato de boas vindas às garotas. Levemente a primeira soltou o feixe do espartilho negro e tragou aliviadamente seu cigarro que já se findava, passou as mãos pelos cabelos compridos e negros, levemente encaracolados tocando depois a maquiagem verde borrada por alguma angústia ou ódio que lhe escorrera dos olhos. Tomou uma carta que ainda pousada sobre a mesa não havia sido revelada aos que ali gozavam da jogatina. Atenciosamente, como costumava ser, a que se pusera à direita da que chorara correu os dedos finos e compridos pela face da que ali estava com os olhos desmantelados, secando-lhe uma lágrima que persistira. Dentre os seios fartos e marcados pela renda do sutiã sacou um fino lenço salmon e entregou-o à garota da carta.

-Por que te escorrem as lágrimas? Perguntou ela soltando o louro cabelo enquanto as outras pareciam abstraídas. Friamente, a garota das lágrimas lançou os olhos sobre a carta e ali os deixou. Assim se manteve. Em silêncio. A loura das atenções baixou os olhos e tentou se distrair com a ponta do forro percebendo o equívoco. As outras se entreolharam quase que persuadidas pelo drama da outra, coisa inerente às mulheres: se interessarem pelos dramas umas das outras ora por atenção, ora por pura satisfação de deliciar-se com a desgraça alheia. Se é este ou aquele motivo ainda nãos é sabido.

- Elas me caem por uma carta a tempos descartada.

Dentre os dedos deixou cair uma carta sobre o monte de outras que ali estavam. Um rei de espadas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Cinco horas da manhã. As portas se trancam. Pela janela do lado de fora, vê-se cabeças transitando frenéticas dentro do “hall” de entrada, umas ainda empunhavam plumas, outras com os cabelos esvoaçados por mãos alheias, umas cabeças cambaleantes passavam mais lentas que as outras. Várias cabeças femininas passavam todas ao som do tique-tique dos saltos sobre o assoalho de madeira encoberto por cinzas de cigarro, gotas de “wisk” , pecados libidinosos e amores mal resolvidos. A atmosfera é paradoxal, a bruma do cigarro traz êxtase e ânsia, um ar comum de cabarés. O perfume francês impregnando os babados e tules que pendiam aqui e ali das saias arrancadas e da decoração das paredes.

Na antiga vitrola ainda chiava um “jazz” que a meia luz da sala, dava um ar enfadonho e ao mesmo tempo erótico às figuras femininas dispostas nas paredes fazendo caras e bocas que estimulariam o libido de qualquer reprodutor. Sob a mesa de sinuca o “barman” dormia com seu chapéu a encobrir o rosto e o colete entreaberto assim como as calças. Sobre o lustrado piano ainda jazia um copo sujo de “wisk” e batom onde voavam em círculos dois mosquitos meio que embriagados pelo vapor do álcool.

Em um canto mal iluminado por uma luminária que pendia do teto, sentava-se uma das garotas. Uma das mulheres. Sobre cartas e fichas de “poker” apoiou levemente sua taça de conhaque, acendeu um cigarro e ali ficou. Aos poucos as outras quatro se achegaram, lentas e languidas como que atraídas pelo tabaco que era queimado. Ali, as cinco sem saber, confundir-se-iam com seus sonhos e seus medos. Ali passariam a ver-se umas nas outras e em todas as outras mulheres do mundo.